O QUE É NEUROPATIA?
A neuropatia é uma condição crônica causada por disfunções ou danos no sistema nervoso, levando a sensações de dor anormais, como queimação, formigamento e sensações de choque elétrico. Estima-se que no Brasil cerca de 5% da população sofra de alguma neuropatia periférica – e esse número sobe para 30% entre as pessoas após os 70 anos.
É caracterizada por fraqueza, dor e parestesias (formigamentos) que tipicamente começam nas mãos e pés – em muitos casos os pacientes também apresentam sintomas psicológicos pela piora de qualidade de vida associada. Entre causas comuns temos:
– Diabetes
– Alcoolismo
– Infecção por HIV
– Doenças autoimunes
– Efeito colateral de quimio/radioterapia
– Intoxicação por metais pesados

QUAL O PAPEL DO SISTEMA ENDOCANABINOIDE NO CONTROLE DA DOR?
O sistema endocanabinoide desempenha um papel significativo na regulação da dor, incluindo a dor neuropática. Esse sistema é composto por receptores, endocanabinoides (substâncias químicas semelhantes aos componentes ativos da cannabis) e enzimas que regulam esses endocanabinoides.
Dois principais tipos de receptores cannabinoides estão envolvidos nesse sistema: os receptores CB1, encontrados principalmente no sistema nervoso central, e os receptores CB2, localizados principalmente no sistema imunológico e em células periféricas. Quando se trata de dor neuropática, os receptores CB1 e CB2 têm importância.
COMO OS COMPOSTOS DA CANNABIS ATUAM NA DOR?
A ativação desses receptores por endocanabinoides naturais ou por componentes da planta de cannabis (como o delta-9-tetra-hidrocanabinol, THC) pode ter efeitos na percepção da dor neuropática de várias maneiras:
- Modulação da dor: A ativação dos receptores CB1 pode reduzir a liberação de neurotransmissores excitatórios nos neurônios envolvidos na transmissão da dor, resultando em uma redução na sensação de dor.
- Inibição da liberação de substâncias pró-inflamatórias: A ativação dos receptores CB2 em células do sistema imunológico pode reduzir a liberação de substâncias inflamatórias, o que pode atenuar a inflamação associada à dor neuropática.
- Neuroproteção: O sistema endocanabinoide também pode estar envolvido na promoção de neuroproteção e na redução do dano neuronal após lesões, potencialmente ajudando a limitar o desenvolvimento de condições que levam à dor neuropática.
- Influência na plasticidade neuronal: O sistema endocanabinoide pode afetar a plasticidade neuronal, que é a capacidade do sistema nervoso de se adaptar a mudanças. Isso pode ter implicações na modulação da dor crônica.

ESTUDOS CIENTÍFICOS
Em uma revisão de literatura atual foi avaliado o uso da cannabis em pacientes com neuropatia – muitas vezes pela via inalada, onde os pacientes referiram maior alívio da dor e de forma mais imediata.
Nos estudos foram utilizadas composições ricas em THC, o canabinoide que parece ter o efeito mais analgésico neste caso. Os resultados dos estudos avaliados mostraram em média uma melhora de no mínimo 30% da dor e de forma consistente, atingindo o efeito máximo em 2 meses e conseguindo manter o mesmo efeito sem progredir a dose. Alguns estudos ainda mostraram eficácia igual ou maior do THC no controle da neuropatia comparado a alguns medicamentos como a pregabalina, o que reforça a necessidade continuarmos a pesquisa nessa área tão promissora.
O impacto no sintoma de ansiedade foi ainda mais impactante, chegando a uma redução maior que 50%. Lembrando que todos estudos foram feitos com pacientes refratários – ou seja – que já haviam tentado ao menos 2 tipos de medicações alopáticas antes.

QUAIS AS PERSPECTIVAS PARA O USO DA CANNABIS NA DOR?
Ainda precisamos de mais estudos, avaliando outros compostos da planta com grande potencial no tratamento da dor como o Canabigerol(CBG), terpenos como o B-Cariofileno e também suplementação com endocanabinoides como o PEA.
Mas sem dúvidas o uso dos fitocanabinoides é uma esperança para trazer qualidade de vida aos pacientes com neuropatia que sofrem com os sintomas dessa condição crônica, podendo otimizar o resultado das medicações em uso, reduzir efeitos colaterais e diminuir a dose necessária para controle dos sintomas.

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REFERÊNCIAS:
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